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SANGUE DE LUA, SANGUE DE MAR
Uma história poética de uma realidade complexa
A história dos Homens e a história do Sangue andam sempre ligadas porque este a marca indelevelmente. Mas a história do homem é, também, em larga medida, a história das migrações humanas, pois o homem foi-se sempre deslocando em busca de meios de subsistência.
A migração, invasão e miscigenação das duas populações ( a autóctone e a que migra ) provoca o aparecimento de um desequilíbrio mais ou menos acentuado na população resultante.
O homem é movimento. As populações inteiras, com toda a sua diversidade, transportam com elas, em cada longitude, em cada latitude, ao longo dos milénios, as suas características genéticas, sensíveis às influências variáveis do ambiente, mas também às influências culturais.
Mas o seu sangue, aquele que corre nas suas artérias e veias, permanece inalterado. Mas as suas doenças, as doenças deste tecido líquido, destes órgãos formadores, são de uma importância enorme, porque tudo está no sangue, e o sangue é vida.
É o que acontece no que respeita às duas grandes doenças da hemoglobina: a Talassémia (anemia mediterrânica) e a Anemia de Células Falciformes ou Drepanocitose (cujos glóbulos vermelhos são em forma de lua em quarto minguante ou em forma foice), que são doenças hereditárias do sangue, e que se observam principalmente em determinadas populações, visto haver “áreas natais e fusos de distribuição das hemoglobinas”.
Portugal é, desde os seus primórdios, reflexo do movimento do Homem, pois, enquadra-se numa das regiões do mundo marcada pelas migrações.
Humoristicamente, Ângela Dutra de Menezes, inventou a “Receita do Português”:
Ingredientes:
“Homens pré-históricos do Vale do Tejo e Sado
Um punhado de Lusitanos, se possível, da tribo de Viriato
Celtas, para polvilhar
Romanos
Bárbaros: alanos, vândalos, escandinavos, visigodos
Mouros: tribos de Marrocos e da Mauritânia
Uma pitada de árabes
Judeus sefarditas ibéricos
Cristãos a gosto”
Na realidade, a existência das Hemoglobinopatias (Hbpatias), em Portugal é disso uma consequência e simultaneamente um testemunho.
Esta presença nas populações autóctones e imigrantes residentes em Portugal é conhecida há já várias décadas, desde os anos 30.
Em1950 nasce em Portugal, por essa razão, a geografia do sangue tropical. A população de origem africana foi introduzida, pelo menos, desde a segunda metade do século XVII; no ambiente palúdico (p.ex. os arrozais), a selecção natural fez-se pela eliminação preferencial dos indivíduos sem protecção genética contra a malária.
Deste contexto pode-se inferir que o traço drepanocítico terá entrado por duas vezes na população portuguesa, a saber durante o período islâmico, e após a nossa expansão marítima, e que a mutação beta talassémica, poderá, provavelmente, ter tido, uma origem fenícia e norte africana.
Esta realidade complexa e, por vezes, bem dolorosa e dramática, deve-se às características e manifestações clínicas graves destas patologias.
As Hemoglobinopatias são doenças genéticas hereditárias e apresentam-se geralmente logo à nascença. Surgem, porque e quando ambos os progenitores são portadores e transmissores de um gene da hemoglobina alterado.
Os portadores não são doentes.
Na Talassémia a ausência da produção de hemoglobina causa uma anemia muito grave, só se pode viver fazendo transfusões de três em três semanas e interfere em todo o crescimento e desenvolvimento.
Na Drepanocitose ou Anemia de Células Falciformes a alteração da hemoglobina que existe no glóbulo vermelho, causa uma anemia muito grande e gera graves complicações, entre as quais, crises muito dolorosas agudas.
As pessoas que já nascem doentes são, actualmente, maioritariamente crianças, jovens e jovens adultos, que se distribuem por todo o território nacional, apesar de a grande maioria se concentrar na Região de Lisboa e Vale do Tejo. Os distritos mais abrangidos são Beja, Évora, Faro, Leiria, Lisboa, Santarém e Setúbal.
À população lusa, juntam-se as várias etnias dos imigrantes dos Palop’s, sub-continente Indiano, Timor, Brasil e muito recentemente, dos países do Leste da Europa e Ásia.
Nasce, então, também, em Portugal, em 1987, fruto dos desafios à inteligência e à acção do homem para desvendar os segredos e estabelecer novas estratégias de controlo das Hbpatias na comunidade, o Programa Nacional de Controlo das Hemoglobinopatias que tem como objectivo uma eficaz prevenção destas doenças.
As relações da doença com a sociedade, a economia, o direito, a história, a religião, a filosofia, a literatura, a arte, a música e, em última análise, a política, mas principalmente a relação com o próprio homem e sobretudo com os processos ou as razões que na física desse homem impuseram ou predispuseram que isso acontecesse, conduzem à agregação dessas pessoas, seus pais, familiares, amigos e conviventes em grupos.
Foi assim que se constituiu a Associação Portuguesa de Pais e Doentes com Hemoglobinopatias e que existe para que, na balança da vida, o prato do sofrimento não seja o único a existir e para que tudo valha a pena e ninguém desista
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NOTÍCIAS
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